20 de outubro de 2012

IRASHAIMASE!!!!!!!

Muitos de vocês já viram essa cena, da série “The Big Bang Theory”:



Uma coisa é certa, depois de viver no Japão, o mundo se torna mais barulhento e silencioso, ao mesmo tempo. Hoje vou contar pra vocês como é a vida diária no Japão, quando o assunto é barulho.

Algo engraçado sobre esse país são os extremos. No Japão, o oito e o oitenta estão tão próximos, que se esbarram. Como diz Amelie Nothomb, escritora de uma das mais perfeitas obras no que diz respeito à compreensão de “mente e sociedade japonesas” - o livro “Medo e Submissão”, você pode ser o quão 'freaky' você desejar no Japão, mas dentro de um padrão japonês das coisas. E nem ouse pensar em desrespeitar as regras dessa sociedade (somente no caso de você não ser um japonês, claro). Fazer aqueles tipos de coisa extremamente irritantes que só bêbados fazem (tipo gritar vomitar ou encher o saco dos outros) é muito normal, mas falar no telefone, no trem, não pode. Às vezes fico tão confusa, que não sei dizer se a maluca sou eu ou se as regras aqui são realmente o oposto de tudo que mamãe me ensinou. Mas a gente vai aprendendo que estar longe de casa é também estar na terra dos outros, na cultura dos outros e tendo que aturar os outros.

O silêncio e a falta dele têm um limite muito tênue, no meio de todas essas regras.

Num país onde desastres naturais são mais comuns do que colheitas bem sucedidas, as construções são, obviamente, feitas do material mais leve possível, impedindo soterramentos mortais ou sendo mais maleáveis em casos de tremores. Isso é muito aceitável do ponto de vista de SOBREvivência, mas extremamente desagradável do ponto de vista de CONvivência. Não espere por privacidade em um apartamento japonês, até seu ronco pode ser ouvido através das paredes (sim, eu já ouvi o ronco do vizinho). E não pense que a compreensão de uma estrutura mais leve torna seus 'barulhinhos' perdoáveis para os implacáveis vizinhos nipônicos. As reclamações vão ser mais constantes do que você imagina, ainda mais se você é um 'baka gaijin' ('estrangeiro idiota'), que indiscutivelmente nunca vai entender a forma correta de se viver no Japão. Use chinelos, porque posso ouvir seus passos, ou ponha um tapete na sua casa, pra abafar o som das suas terríveis idas à geladeira ou ao banheiro. Instrumentos musicais? NUNCA! Animais de estimação? Talvez peixes. Amigos visitando? Ensine-os bons modos.

Outras regras rígidas sobre barulho tem a ver, principalmente, com celulares. Nunca entendi muito bem a diferença de uma conversa com um amigo pessoalmente e uma conversa por telefone no Japão. Acompanhado de um amigo, é claro que se pode conversar dentro de um trem. Mas nem pense em atender ao telefone na mesma situação. Já vi situações embaraçosas, onde idosos deram boas “carraspanas” em alguns jovens, por estarem falando no telefone. Preferi aceitar, na minha cabeça, que é muito chato ouvir uma conversa unilateral, os japoneses gostam mesmo de ouvir o pacote completo. Hahaha!

O oposto de tudo isso também está em cada esquina do país.

Não pense que a cena do Sheldon é invenção da TV! Sim, os japoneses têm o costume de receber clientes, em restaurantes ou lojas de qualquer tipo, gritando e mostrando entusiasmo. Eles têm a intenção, na realidade, de mostrar ao cliente que ele é bem vindo ou que pode voltar sempre ou que todos são muito agradecidos pela preferência. É também costume das lojas usarem musiquinhas e barulhinhos sonoros, sempre que possível.

Irashaimase’ (‘seja bem vindo’), é o mantra no momento de entrada na loja ou sempre que um funcionário passa por você. É claro que existem as variações, de acordo com o grau de formalidade, mas o basicão é o ‘irashai’. ‘Arigatou gozaimasu! Mata okoushikudasaimase!’ (‘Muito obrigado! Até a próxima!’) é a calorosa despedida, nos mostrando o quão acolhedora e grata é a loja e o quanto nós somos esperados novamente.

Cortesias à parte, é extremamente desagradável comer, fazer compras ou qualquer outra coisa com esses gritos. Imagine em uma loja muito movimentada, quantas vezes a cada 5 minutos somos obrigados a ouvir isso? Às vezes chega a ser desesperador, dependendo da vozinha que a vendedora escolher fazer (o que também é muito comum entre as mulheres japonesas, fazer vozes ‘kawaii’ para se mostrarem bonitinhas).

Pachinkos, os famosos caça-níqueis japoneses, são portões do inferno pra aqueles que preferem um pouco mais de sossego. Passar na calçada de um desses “centros de lazer” nos leva a pensar em quanto tempo seria possível sobreviver dentro de um lugar como aquele e como as pessoas conseguem, às vezes, passar dias inteiros dentro daqueles lugares.

O resumo da ópera é: ao vir para o Japão, lembre-se sempre que andar dentro do seu próprio apartamento pode ser um incômodo mortal para o seu vizinho, mas, se gritarem no seu ouvido no meio do jantar, é só gentileza.

E, depois de 2 anos e meio aqui, passei a falar baixo demais pra padrões brasileiros, praticar a arte de andar em ovos sem quebrá-los sempre que estou dentro de casa e estranhar a falta de gritos quando entro ou saio do McDonald’s (ou qualquer outro restaurante) fora do Japão.

8 comentários:

  1. Amei o post! E penso que, às vezes, alguns costumes diferentes podem se tornar irritantes e difíceis de conviver, mas parto do princípio de que até as experiências estranhas são bem-vindas, quando trazem bagagem cultural. Tudo que é novo significa crescimento intelectual, embora não o queiramos para o resto de nossas vidas. Aproveite bem toda essa loucura, porque, por incrível que pareça, vai te trazer benefícios depois! Bjos!

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  2. A experiência que vc esta passando "não tem preço". Pense também que, de alguma forma "tântrica" os japoneses estão curiosos e aprendendo com aqueles 'baka gaijin' do apartamento vizinho.
    Conhecer uma cultura ancestral também "não tem preço".
    Fico imaginando o quanto vc vai estranhar quando for a um restaurante na Alemanha ou na Inglaterra. Até PUB é silencioso. Vai achar que o lugar esta vazio.
    Aproveite bastante o conhecimento e a convivência. Extraia tudo de bom que existir e conheça as coisas ruins para fugir das más consequências.

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  3. Você vai ter que me ensinar bons modos...? Fudeu... Vou torcar minha passagem pra Bangladesh.

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    1. Hahahahaha! O mais legal é ñ ter os bons modos!

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    2. Mas eu não corro o risco de ser deportado??

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Nunca dantes um topico foi tao bem explicado e desmembrado num post!
    Obra-prima dessa escritora nata!
    E eh bem TUDO isso ae mesmo que ela falou!
    =P

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