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5 de julho de 2015

Nova casa, novo trabalho, África do Sul, Japão e a saga da academia

Minha vida daria numa comédia bem boa, daquelas de doer a barriga de tanto rir. Sei disso porque eu mesma rio... Às vezes pra não chorar, mas rio.

Quase DOIS anos completinhos depois de dormir no topo do Monte Fuji, estou de volta. É aquela velha relação blogueiro-blog, que só as duas partes entendem. Você escreve enquanto as inspirações duram, daí você pára, depois você volta. Mas é gostoso voltar vendo o quanto o blog continuou vivo durante esse tempo. Bom saber que não escrevo só pra mim mesma.

Muita coisa mudou desde aquele agosto de 2013. O trabalho de doutorado, infinito e sofrido, acabou. Sou doutora (e, sim, isso ainda soa estranho pra mim... mas falamos sobre isso mais tarde!), voltei pro Brasil, trabalhei no Brasil, fiquei noiva no Brasil (UHUUUL!!!) e minha carreira me puxou pelo pé e me jogou na África do Sul.

Nascer do sol na África do Sul, visto do avião
“Mas menina, comassim?”, vocês perguntam. E eu respondo “O Japão, queridos... Sempre o Japão”. Lá para fins de fevereiro desse ano, em uma conversa com um amigo que também se formou no Japão – em meio às lamúrias da falta de oportunidade e das dificuldades de ser um doutor em lugares que não se mostram muito abertos para doutores, mesmo sendo as nossas casas –, soube de uma novidade... Um projeto... O mesmo projeto no qual trabalhei no mês anterior a voltar para o Brasil (lá no Japão). Uma vaga ainda estava aberta para 10 meses de trabalho na África...

Dúvidas, discussões, dúvidas, lamentos, dúvidas, esperanças, dúvidas, projetos... Já disse dúvidas? A organização de um casamento à distância, valhei-me secretária-representante-administradora-mãe... A organização de uma vida pós-casamento à distância... Visto tirado às pressas, passagem comprada às pressas... Tudo corrido, tudo suado. Ajuda de muitos amigos queridos. O pensamento focado em construir um futuro, que agora não vai ser mais só meu, seremos dois em um... E a vantagem de ter O Cara dando aquele empurrãozinho quando as coisas não pareciam ir bem.

E aqui estou eu, na África. Minha primeira vez no continente da origem... E quem diria que ia ser algo tão definitivo, né? 10 meses morando aqui, trabalhando e pesquisando aqui. Pela primeira vez uma pesquisa sobre a África. Relacionada com a pesquisa anterior sim, um pouco de ONU na jogada, mas minha primeira conexão africana.

O lugar? Bloemfontein. A fonte das flores. A cidade das rosas. A capital judicial da África do Sul (uma das três capitais, na verdade – junto a Pretória e Cidade do Cabo). Uma grande pequena cidade, com muitos shoppings, poucos prédios e cercada por fazendas. Nenhum Burguer King, nenhum Starbucks, mas um McDonald’s, um mercado de fim de semana muito legal, pessoas incrivelmente simpáticas e uma universidade fantástica. Comparada com Johanesburgo, onde estive no mês passado, Bloemfontein é muito pequena. Mas isso salva cidade de índices elevados de violência, garante o menor índice de poluição atmosférica do país e ainda dá de presente para os habitantes a melhor qualidade de água da África do Sul.

Durante esse primeiro mês não tive muitas chances de explorar meu novo endereço no planeta. A espera pelo primeiro salário é sempre angustiante. Mas pude ver algumas coisas que, em geral me intrigaram e também agradaram, na maior parte. A África do Sul é um país de pessoas amigáveis, felizes, simpáticas. Existem os “cara de orifício anal”? Existem, mas são a minoria. E não há um sorriso bem dado que não arranque um sorriso igualmente bonito. Sinto-me em casa nesse continente, realmente acho que herdamos a parte boa daqui.

Ao mesmo tempo, as semelhanças com o Brasil também são grandes no sentido não tão bom da coisa. Como na saga da academia, por exemplo...

Há três semanas encontrei a academia do campus. Isso, em si, já foi uma saga. Todos (ou uma parte das pessoas) sabem que a academia existe, ninguém sabe onde fica. Levei duas semanas para achar o lugar. Quando encontrei, achei muito legal; as academias aqui do Brasil, ops, da África do Sul são muito parecidas com as academias da África do Sul, ops, do Brasil. Cheguei na secretaria e perguntei sobre a inscrição e fui informada que só acontece às sextas-feiras. ”Ok! Volto na semana que vem!”, respondi. Uma semana depois, lá estava eu e mais uma vez não consegui me registrar, porque, segundo o funcionário, os registros aconteciam das 10h às 11h da manhã. ”Mas não me informaram isso...”, respondi ao funcionário brasileiro, ops, sulafricano. Na semana seguinte, pra ser mais precisa, na última sexta-feira, voltei à academia para ouvir que os registros não são feitos durante o mês de julho, agora só em agosto. E, ali, me senti na África do Sul, ops, no Brasil...

Brincadeiras à parte, é bem verdade... Somos semelhantes em muitos pontos. Às vezes é impossível não fazer a comparação e fica até chato repetir sempre a frase ”É, nós temos isso no Brasil também”. Para as semelhanças boas, parece uma certa necessidade de não estar por baixo. Para as coisas ruins, fica parecendo uma eterna competição de quem está mais caído...

No meio de julho recebo visita ilustre (MÔÔÔÔ!!!!) e, aí, vou poder ver mais coisas dessa terra ainda não explorada por mim. Estou animada! Acho que esse continente tem uma certa magia, me encanta...

27 de agosto de 2013

Dormindo no topo do Japão

Monte Fuji visto da quinta estação
Sou pequena, frágil, cheia das minhas frescuras e medos, não há quem diga que luto Taekwondo ou que gosto de me meter numas aventuras tenebrosas. Mas a verdade é que eu gosto, eu vou, me sujo, me machuco, me canso, me quebro, passo perrengue e tenho minhas histórias pra contar no fim. Já cruzei meio Japão de trem normal, numa viagem de 18hs, já fiz trilha de chinelo etc. Semana passada resolvi colocar mamãe de cabelo em pé (de novo) e fui sozinha escalar o Monte Fuji, o pico mais alto do Japão e também um vulcão ativo.

Existem vários relatos de como é a experiência de escalar o Fuji. Li muitos antes de ir, pra poder me preparar. Mas, sinceramente, nenhum deles conta exatamente como é a subida ou a descida. Nenhum deles consegue resumir exatamente o sentimento ou o que é necessário. No fim, concluí que nada como a experiência em si pra nos ensinar onde erramos e onde acertamos, que parte é simples e qual é a complicada. O que é possível e o que não é.

Depois de quase 3 anos e meio no Japão, minha última chance de escalar o Fuji foi agora. Todo ano, as trilhas e estações da montanha são abertas no verão, entre julho e agosto. Em geral, a temporada de escalada acontece entre a primeira semana de julho e o dia 31 de agosto. Algumas variações de dias podem acontecer, devido às condições climáticas, mas, resumindo bastante, temos esse intervalo de dois meses pra visitar o topo do mundo nipônico.

Desde que cheguei aqui tinha muita vontade de ir e empurrei com a barriga por preguiça, outros planos etc. A verdade é que a ida exige uma certa preparação material e de atualização com o clima. Cinco dias antes de ir (ou decidir a data da minha ida), comecei a checar a previsão do tempo no topo, para garantir que a subida não seria em condições ruins e que o meu nascer do sol (evento máximo da escalada) estaria garantido. O site da Agência Meteorológica Japonesa se mostrou muito complicado, então fui atrás de sites mais específicos, como o Mountain Forecast ou o Mt. Fuji Climbing. Consegui encontrar uma “janela”, em uma semana que prometia tempo nublado, juntei minhas tralhas e fui.

No trem, a caminho.
Minha programação era: ir de trem (trem-bala + trem normal), subir até a quinta estação de ônibus, começar a trilha por volta de 3 horas da tarde, subir com tranquilidade, passar a noite no topo, ver o nascer do sol, andar um pouco em torno da cratera, descer e voltar pra casa. Consegui seguir de certa forma o que tinha programado, mas os “extras “ são sempre a parte boa da aventura, né?

Existem quatro opções de trilhas para a escalada do Monte Fuji: Yoshida, Subashiri, Gotemba e Fujinomiya.
Trilha Yoshida
As três tem características diferentes: Yoshida começa na cidade de Fuji-Yoshida, é a mais fácil e com mais assistência (muitos banheiros, casas de hospedagem e lojas); Subashiri começa na cidade de Oyama, é coberta por vegetação até a sexta estação e se une à Yoshida na oitava estação; Gotemba é a trilha mais longa, começa na cidade de mesmo nome e tem pouca assistência para quem escala, pelo menos até a oitava estação; Fujinomiya também começa em cidade homônima, é a trilha mais curta de todas, porém a mais inclinada e complicada, além de apresentar poucos locais de assistência.

Para a subida, escolhi a trilha Yoshida e descobri que o nível de dificuldade relatado nos sites não era o mesmo que eu acreditei que fosse. Apesar de serem trilhas, a escalada se faz escalada de verdade em certos momentos. Na Yoshida, o caminho entre a sétima e a oitava estações apresenta trechos de “rock climbing” real, com mãozinha na pedra, bracinhos fortes etc. Apesar de ser em zigue-zague, a trilha Yoshida não deixa de ser inclinada e cansativa também. Cheguei à quinta estação pouco antes das 2 horas da tarde, fiquei um pouco por lá passeando e me adaptando à altitude, iniciei a subida no horário que tinha previsto e consegui alcançar a oitava estação em 3 horas e meia. A beleza de ter começado mais cedo foi, com certeza, poder ver o show de luzes do pôr do sol.

Cajado e suas marcas
Para auxiliar a subida, comprei um cajado de madeira, que é vendido nos pontos de partida para a trilha e mesmo nas lojinhas da subida. Como comprei na estação de trem, gastei cerca de 800 ienes, mas os preços podem chegar a 1.500 ienes, conforme você sobe. A parte legal do cajado é que a cada estação você pode marcar o seu avanço com carimbos a ferro quente. Cada um com um desenho, às vezes até dizendo a altitude, a data e tudo mais. Sendo que o mais importante é, sem dúvida, o do topo, né? E, na volta pra casa, pode saber que você e seu cajado vão ser as estrelas do trem, e todos os velhinhos vão querer saber se você realmente escalou o Fuji-san. Hihihi!

Depois da oitava estação, começou a escurecer e tive que usar minha lanterna de cabeça. Sim, o ideal é deixar as mãos livres por vários motivos, entre eles o apoio nas pedras de alguns trechos e a ajuda na proteção em caso de queda. No escuro, a subida se tornou mais lenta e cuidadosa. Apesar da bênção de ter tido o clima perfeito durante todo o tempo (mesmo tendo checado previsões de tempo nublado) e só ter visto passar longe uma tempestade de raios linda, o vento chegou com força total depois do pôr do sol. E quando digo com força, não estou exagerando; eram rajadas de vento bizarras mesmo. A lua cheia também deu o ar da graça nos últimos metros de subida e compôs cenários maravilhosos, que vou guardar pra sempre na memória.

Às 22 horas cheguei ao topo do Fuji. Depois de ter iniciado a subida muito tranquila e em um ritmo bom, os últimos metros foram uma mistura de sentimentos e, incrivelmente, isso parece ser a experiência de todo mundo que resolve encarar essa aventura sozinho. O cansaço, a escuridão e os obstáculos reduzem mais sua velocidade, as dores começam a aparecer, as paradas pra descanso passam a ser mais frequentes e o fim parece cada vez mais distante. Um amigo relatou de uma forma que descreveu direitinho o que senti; o que inicialmente não tem nada de espiritual, se torna espiritual nas últimas centenas de metros de escalada. Quando tudo se junta, as lágrimas vem, a exaustão tenta te derrubar e ali, no escuro, no silêncio, no vazio, você sente a presença de Deus. Eu senti, esse amigo, quando subiu, também sentiu; acho que todo mundo sente. E eu chorei, rezei, agradeci por ter uma oportunidade tão única, tão especial. Quando veio o topo, não conseguia mais me conter e chorei mais, de alegria, saudade de tanta gente, gratidão. Chorei me sentindo vitoriosa, capaz. Foi uma sensação incrível, que eu compartilhei somente com Deus, minha única e mais que poderosa companhia.

Lua cheia, na parte final da subida
Depois que a oitava estação desaparece sobre o ombro, durante a noite, a nona estação é somente uma ruína abandonada e o topo é deserto. As pessoas só começam a chegar e se acumular a partir das 2 horas da manhã. Antes disso, só os poucos lunáticos (eu). Assim, fui obrigada a passa a noite na porta de uma das lojas, encolhida embaixo do que levei para me proteger do frio e, quando não apagando por pura exaustão, tremendo muito, enquanto o sol nascente não vinha. Esse foi o meu primeiro aprendizado: roupas mais quentes e mais estruturas pra se proteger do frio, se você é suficientemente louco pra resolver dormir no topo. Meu “jeitinho” foi me enrolar na capa de chuva, deitar no chão e me cobrir com uma lona e uma manta que tinha levado, além do meu casaco mais pesado e minhas luvas. Não foi perfeito, eu parecia uma mendiga, mas me salvou de alguma forma do vento cortante. Enquanto no nível do mar a temperatura era de 37 graus, na montanha, a 3.767 metros, a temperatura era de 37 divididos por 10. Enquanto passava frio, acreditei piamente no que li sobre como já é inverno no Fuji a partir de meados de setembro. O fundo da cratera já apresentava até um pequeno (bem pequeno) acúmulo de neve.

Às 3 horas da manhã as lojas no topo abriram. Espertamente, todos começaram a vender bebidas quentes e oferecer refeições. Um detalhe importante sobre a escalada é: levem dinheiro, bastante dinheiro. Apesar de ser possível, como eu fiz, levar comida, dormir no frio e evitar maiores gastos, emergências acontecem, os banheiros são pagos e, na hora do frio, até eu cedi minhas ricas moedinhas por um chocolate quente e abrigo até o céu clarear. Sem contar que a necessidade faz todos os homens, principalmente os que ganham dinheiro com ela; as coisas são extremamente caras durante a subida do Fuji.

Quando o céu clareou, por volta das 4 horas da manhã, tomei meu lugar e fiz valer meu esforço, o frio e a espera. Nunca, na minha vida, tive uma experiência como o Goraiko (o nascer do sol visto do topo do Fuji). É maravilhoso! Eu fui uma das primeiras pessoas no mundo a ver o sol nascer no dia 22 de agosto de 2013.

Goraiko
Depois de passados os meus momentos com o sol nascente no topo do país do sol nascente, resolvi perseguir meu fascínio por vulcões e fui caminhar ao redor da cratera, na trilha chamada Ohachimeguri. Essa trilha também não é das mais fáceis, com algumas partes bastante inclinadas, mas é fascinante poder ver um vulcão ativo “por dentro”. Sempre tive esse fascínio suicida... Acabei escolhendo uma boa pedra, numa parte mais baixa da trilha, bem perto da cratera, pra tomar meu café da manhã e ter mais um conto pros netos. O Fuji tem baixo risco de erupção, mas continua sendo considerado um vulcão ativo e fica no encontro de 3 placas tectônicas, a Euroasiática, a Okhotsk e a das Filipinas (OMG! EU ESTIVE NO ENCONTRO DE 3 PLACAS! *-*). A última atividade do grandão aconteceu em 1707.

Kegamine ao fundo
Depois disso, subi até o pico mais alto do Fuji (3.776m), e consequentemente do Japão, chamado Kengamine. Lá ficava localizado o sistema de radar meteorológico japonês, o mais alto do mundo, e ele podia detectar fenômenos naturais a 800km de distância. Hoje os satélites o substituíram, mas a instalação ainda existe. O vento dificultou tanto a chegada ao pico e o caminho a diante era tão inclinado, que acabei voltando dali, percorrendo só metade da trilha da cratera. Mas valeu. Preferi ter tido só a experiência de chegar ao lugar mais alto e deixar de ser jogada pelo vento ou montanha abaixo ou pro fundo da cratera. Hehehe!

Inicialmente tinha decidido voltar pela Fujinomiya, por ser a mais curta e pra reduzir os gastos da passagem de volta. Mas o vento na trilha da cratera e a inclinação me fizeram voltar para a Yoshida mesmo, que também era considerada a mais fácil. Mas, se ela era a mais simples, eu certamente ia me quebrar muito na mais curta. A descida foi, definitivamente, a parte mais tensa da jornada. Subiria mais mil vezes, se não tivesse que descer nenhuma delas. Certamente a falta de um calçado próprio dificultou muito a minha vida, mas não posso colocar a culpa só no meu tênis, pois vi muita gente cair mesmo com botas específicas. Apesar de não ser muito inclinada, a descida na trilha Yoshida é uma ladeira de pedras vulcânicas soltas, que você precisa encarar cansado e, dependendo do clima, debaixo de sol o tempo inteiro. Resultado: caí 4 vezes, ralei minhas mãos, machuquei e forcei muito meus joelhos, tive queimaduras de sol (culpa toda minha) e, no fim, não conseguia nem mais andar direito. Desci em uma velocidade ridiculamente baixa, levando 5 horas. Além disso, a trilha tem apenas três locais com banheiros e bastante distanciados uns dos outros. Tenso. Mas nada disso apagou a sensação fenomenal de antes.

Na volta pra casa, apesar de cansada, me senti vitoriosa. Escalei a montanha mais alta do Japão e marquei pra sempre no coração o período da minha vida que estou passando aqui. Sou grata ao Japão por me oferecer essas oportunidades únicas. A escalada do Fuji pode não ser “mamão com açúcar”, mas não é extremamente complicada, e a recompensa que recebemos por ela é fenomenal. Recomendo muito essa aventura!



20 de maio de 2013

O que os japoneses comem?

Vocês me respondem sushi e peixe cru. E eu, citando Amy Winehouse, digo “no, no, no”.

O famoso sushi! =P
Mas, afinal, se não é só sushi ou arroz, o que os japoneses comem, né? Eu diria que eles comem de tudo, com as limitações que o solo e o espaço deles oferece. A verdade é que o cardápio japonês é bem variado, além do que nós “meros ocidentais mortais” temos conhecimento.

O arroz é o prato principal do japonês. Sim, carnes e etc. são só acompanhamentos na culinária japonesa. Os chamados okazu, que, ao pé da letra, são alimentos que acompanham o arroz. E, na culinária tradicional japonesa, esses acompanhamentos incluem muitos derivados de soja, como o tofu, o missoshiro (sopa de pasta de soja) ou o nato (que nada mais é do que grãos de soja fermentados, babentos e meio feios de ver, mas muito saudáveis e nem tão ruins assim). Outros acompanhamentos são: algas marinhas de vários tipos, em geral servidas como salada; o delicioso tamagoyaki, que é um tipo de omelete japonês (enroladinho e muito gostoso); algumas carnes, na maior parte das vezes frutos do mar, frango ou porco (lembrando que carne de vaca aqui é ouro); salada de batata; salada de repolho (lembrando que as verduras também não são assim tão acessíveis aqui, mas repolho é barato).

Bento comprado em loja especializada.
Uma “tradição” japonesa para as refeições fora de casa, no trabalho ou na escola, são os famosos Bentos. O Bento é a nossa marmita brasileira, mas um pouco mais organizada (ok, super-mega-ultra mais organizada). Essa versão japonesa de marmita traz basicamente arroz e os acompanhamentos que eu já citei aqui. Algumas podem trazer batatas fritas, macarrão, etc. Os Bentos são geralmente preparados pela própria pessoa (ou pela mamãe da pessoa), para serem levados pra rua, mas supermercados e lojas de conveniência também dão uma maozinha aos despreparados culinariamente, vendendo boas versões de marmitas já prontas. Existem também as lojas especializadas em Bento, que tem cardápios de opções de marmitas e preparam a comida na hora (pra minha alegria, passei o último ano com uma dessas lojas bem em frente de casa; meu coringa pras horas de preguiça).

Para além da “comida caseira” japonesa, existem alguns pratos muito apreciados pelos japoneses. Um dos mais famosos mundialmente é o Lamen ou Ramen. Sim, aquele prato que o Naruto e quase todos os outros personagens de anime adoram comer. O Ramen é famoso no Brasil pela marca Nissin Miojo. No Japão, apesar de vendido nos supermercados, o nosso miojo não vence as várias lojas especializadas em preparar Ramen. O Ramen, aqui, é um prato que possui versões regionais específicas e é, de fato, completamente diferente do nosso miojão de 3 minutos. Sopa, carne, verduras e massa são preparados de forma bem específica para um Ramen de verdade. Confesso que me tornei uma pessoa que aceita a água do miojo depois de aprender que aquilo ali precisa ser, na verdade, uma sopa. E hoje sou uma amante de Ramen também.

Donburi e Ramen, os queridinhos do Japão.
Outro prato muito famoso no Japão é o Donburi. Os nomes de cada tipo de Donburi são terminados em don, que quer dizer “tigela de comida”, o que é engraçado e os pratos acabam ficando com nome parecido com Pokemons e afins. Em uma tigela, adiciona-se arroz e, sobre esse arroz, vão os demais ingredientes, que podem ser: tempura (formando o Tendon), carne refogada com cebola (formando o Gyudon), frango frito (formando o Torikaraagedon) e por aí vai. Os tipos de Donburi são vários e em geral bem gostosos, são meus pratos favoritos aqui. É lógico que não são simplesmente acompanhamentos sobre arroz, tudo envolve um molho próprio pro prato, cebolinha etc. Existem restaurantes especializados em Donburi, que mais parecem, na verdade, um “fast food japonês”, servindo a comida rapidamente para aqueles que precisam só de uma refeição rápida antes de voltar ao trabalho. Um deles é a Sukiya, que já possui uma filial em São Paulo.

Além dos produtos nacionais, os japoneses também apreciam bastante comidas de outros países. As mais famosas são a chinesa (claro), a indiana e a coreana. Os restaurantes chineses servem basicamente o que nós conhecemos aí no Brasil, com a exceção dos dumplins, que não são tão conhecidos assim em terras tupiniquins. Os dumplins parecem pastéis preparados no vapor, ao invés de fritos; eles são uma massa recheada com um tipo de carne ou verduras. Existem tipos variados de dumplin, cada um mais delicioso que o outro, mas o mais famoso no Japão é o Gyoza (uma das minhas coisinhas favoritas nessa vida também). Os restaurantes indianos estão por toda parte e o curry já é parte da alimentação diária do japonês. Trazido pelos navios ingleses, no século 19, o curry indiano foi adaptado ao paladar japonês e passou a acompanhar também o arroz, formando o famoso Kare Raisu. Mas também se pode encontrar o curry indiano tradicional nesses vários restaurantes. A comida coreana é muito conhecida e apreciada no Japão também. Depois de tantos anos colonizando a península coreana, os japoneses tomaram gosto pelos temperos de lá, bem como os coreanos tomaram gosto pela comida japonesa. No Japão podemos encontrar o delicioso churrasco coreano, o kimchi, o bibimbap, o chigue, o chijimi, entre outras coisas. Um dia explico melhor a culinária coreana, mas, em geral, é um conjunto de delícias apimentadas, que eu adoro.

Dumplin chinês, Curry indiano, Pasta italiana
e a nossa amada Picanha brasileira.
Outros tipos de restaurantes também podem ser encontrados aqui, como restaurantes italianos (japoneses ADORAM pasta, apesar de terem um gosto bem específico para o tipo de pasta, e ADORAM a Itália; não sei bem o porquê, mas, sendo italiano, é bom), restaurantes espanhóis (geralmente de Paella; arroz, Japão), restaurantes do tipo americano (servindo hambúrgueres etc.) e até churrascarias do estilo brasileiro, entre outros tipos.

Cada região do Japão também possui seu prato típico, sua especialidade e isso é um tópico muito legal de conversar. No Japão você pode viajar para conhecer locais e também para conhecer sabores. O Okonomiyaki, por exemplo, é um dos pratos típicos da região de Kansai, onde eu moro. Outro prato típico é o Chanppon, de Nagasaki. E isso daria um post inteiro... Depois... Quem sabe... Hehehe!

Na ordem: Okonomiyaki de Kansai e Chanppon de Nagasaki.
De certa forma, a comida no Japão é bem variada. É possível encontrar de tudo, mas, como em qualquer país, a maior parte dessa variedade é adaptada às disponibilidades e características culturais daqui. No Japão, por exemplo, a comida tende a ser menos temperada. E, quando digo menos temperada, quero dizer em todos os sentidos. O salgado tem menos sal, o doce é menos doce e por aí vai. Eu, sinceramente, por não ser muito ligada a doces, prefiro muito os doce japoneses (tirando o doce de feijão, feijão doce não tá certo nem a pau! rs). E acho muito saudável reduzir o consumo de sal.

Uma coisa é certa, está mais do que provado que a alimentação é um dos segredos da longevidade e, no caso do japonês, acredito que essa é a poção da juventude. Em um país onde o fumo e a bebida são comuns (e bastante excessivos), só uma alimentação balanceada para salvar o povo.


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Esse post surgiu de uma ideia da senhora minha genitora, quando conversávamos no Skype. Linda como sempre, enquanto conversávamos sobre comida japonesa, ela me perguntou “Mas, então, o que os japoneses comem?”, e essa foi a deixa pra eu me lembrar que nem todo mundo conhece bem os hábitos alimentares japoneses para além do sushi e o sashimi. Que tal vocês me mandarem mais perguntas/post? O e-mail do blog é coresamoreseafins@gmail.com e a caixa de comentários também está sempre à espera de visitas. rs (^.~)

19 de março de 2013

WE LOVE SUIHANKI!


Hoje vou contar pra vocês sobre a minha assistente de cozinha, minha fiel escudeira, a mãe do meu arroz mágico e de outras maluquices que eu invento de testar: a minha suihanki.

O nome sui-han-ki significa, ao pé da letra, utensílio de cozinhar arroz. Sui de ferver, cozinhar. Han (de goHAN), que significa arroz ou refeição. E ki, que significa utensílio, máquina.

A suihanki é uma panela elétrica japonesa, voltada para o preparo de arroz. O uso é muito prático e ajuda muito quem tem uma vida agitada, ainda mais em um país onde o arroz é o prato principal. Além de preparar o arroz japonês normal, algumas suihankis também preparam arroz integral e o okayu, que parece uma canja sem galinha e nem tempero.

O processo é bem simples, depois de ter lavado o arroz, é só adicionar a quantidade de água correspondente à quantidade de copos do arroz e ligar a bichinha. Dependendo do tipo de arroz, da quantidade e da velocidade que você prefere, é só aguardar entre 30 minutos e 1 hora. E, depois do ‘bip’, está pronto o seu arroz japonês...

Bem... Isso é o que os fabricantes dizem. Porque a suihanki vai muito além do arroz japonês.

O arroz, no Japão, é preparado só na água, sem sal, temperos e tudo que há de bom, como fazemos no Brasil. Confesso que adoro a versão japa, mas também adoro um arrozinho bem temperado. Mas a suihanki não te impede de ser brasileiro não. PELO CONTRÁRIO! Ela só facilita a sua vida. A diferença é que na suihanki você só joga tudo na água e deixa ela fazer o resto por você. É muito amor.

Arroz com Kimchi e Arroz com Pequi, feitos na suihanki.

A única dificuldade que eu encontrei no arroz temperado de suihanki foi a cebola, que desfaz quando cozida nesse tipo de panela e deixa o arroz pegajoso. O problema é que a suihanki está mais para uma panelinha de pressão, daí a cebola se desfazendo, mas nada nos impede de juntar uma cebolinha refogada ao arroz já pronto. Os demais temperos funcionam muito bem.

Além de temperos, nada te impede de juntar outros ingredientes ao arroz de suihanki. Carne seca, bacon, pedacinhos de liguiça, salsicha, camarão, milho, ervilha, cenoura, brócolis, kimchi. Já me aventurei num arroz com brócolis e bastante alho; não foi em vão, ficou uma delícia.

Indo um pouquinho mais além, nem só de arroz vive uma suihanki. Sendo essa panelinha super especial, ela prepara coisas que muita gente duvida. Uma amiga já prepara bolos e tortas na panela de arroz e diz que funciona muito bem (ainda não tentei, mas pretendo e, depois de tentar, conto pra vocês como foi). Outro amigo prepara feijão (sim, nosso feijão brasileiro) na suihanki e jura que dá certo (essa eu já tentei, mas a primeira tentativa não foi muito bem sucedida). Eu preparo espaguete e digo pra todo mundo ouvir: é o melhor macarrão que eu já provei. Por cozinhar tudo ali, misturadinho na água, a suihanki deixa a massa do espaguete muito saborosa e o tempero “pega” mesmo!

Nas minha tentativas, já falhei, fiz papinha ao invés de macarrão e tudo mais. Mas nada por culpa da máquina e sim por falha humana mesmo. Usei a massa errada, com a quantidade errada de água. Acontece...

Eu, sinceramente, ainda pretendo testar minha panela de arroz pra muitas outras coisas. Acredito que ainda não alcancei o limite dessa belezura. E mamãe já pode ficar feliz, porque logo logo vai ter uma dessas em casa também.

Pros brasileiros no Japão ou pra quem tem suihanki no Brasil, fica a receitinha do meu “Macarrão de Suihanki”.


Você vai precisar de:
- Espaguete (quantidade dependendo do tamanho da panela e das bocas pra alimentar);
- Bacon em cubinhos;
- Provolone, também em cubinhos;
- Queijo processado, em fatias (no Japão, de preferência, o do tipo torokeru);
- Cebolinha, pimenta do reino, cheiro verde, alho e cebola granulada a gosto.

Pra preparar essa massa, vc só precisa quebrar o espaguete em até três partes, colocar uma quantidade de água suficiente pra cobrir o macarrão no fundo da panela e mais um pouquinho (tomem cuidado em deixar a massa no fundo mesmo, pra quantidade de água não ficar grande demais), adicionar todos os ingredientes, tomando o cuidado de rasgar grosseiramente o queijo processado, e pronto. É só apertar o botão e esperar.

O cheiro, enquanto a suihanki realiza a magia, é de agitar as lombrigas. Vocês vão sentir... E é um prato que não dá trabalho por mais de 10 minutinhos, além do “trabalho” de comer. Hahaha!

E é por essas e outras que eu AMO MINHA SUIHANKI!!!!

7 de março de 2013

Morar no Japão

“Como é uma casa japonesa?” “Quanto custa morar no Japão?” “Como é procurar um apartamento no Japão?” “Todas as casas são pequenas?” “Todo mundo dorme em futon, sobre o tatami?” “Todas as portas são de correr e todas as cidades tem muitos samurais, ninjas e lutas de espada na rua?” “O Naruto e o Jiraya são seus vizinhos?” São perguntas muito comuns sobre o Japão...

Respondendo, consecutivamente: Diferente; caro; difícil; a maior parte; não; não; e NÃO, GRAÇAS A DEUS. (rs)

A moradia, no Japão, é um caso bem diferente do Brasil, eu acho.

Primeiramente, se existe uma grande adaptação que precisamos passar, quando resolvemos viver no Japão, o nome dela é ESPAÇO. Parece besteira, mas a verdade é que sair do nosso (literalmente) grandioso Brasil e vir parar em um arquipélago como o Japão é complicado em termos de organização de espaço. Quando digo que virei a rainha do Tetris nessa terra, não brinco.
Já vivi em dois lugares diferentes aqui e, hoje, estou me preparando pra mudar de novo. O primeiro foi o dormitório e, como já disse por aqui, foi uma... Experiência... O quarto tinha 9 metros quadrados, com banheiro e cozinha compartilhados, e lá tive minhas primeiras lições de organização espacial, além de lições de convivência (aprendi que nunca mais quero dividir nada com desconhecidos lunáticos). O segundo lugar foi o Cafofo, que dividi com o namorado, e também falei um pouquinho aqui. O apartamento tem 42 metros quadrados, varanda e é um lugar bem legal, com soluções legais de aproveitamento de espaço e conforto. O terceiro vai ser minha Choupana na montanha, onde vou passar a viver a partir de abril. A Choupana tem 21 metros quadrados, varanda e é o típico apartamento japonês para uma só pessoa, mas ainda uma boa opção.

Agora, sabendo o tamanho desses apartamentos, procure lembrar de quantos metros quadrados tem a sua casa (ou apartamento) no Brasil... Pois é... Logicamente existem casas grandes no Japão, mas essas pertencem a pessoas com bastante dinheiro ou são mais antigas, naquele formato clássico que conhecemos, com lindos jardins japoneses.



Existem dois tipos de apartamentos japoneses, os apatos e as manshons. Manshon é um apartamento pequeno, de menor custo e, geralmente, de até dois quartos ou ambientes. Apato é um apartamento maior, mais caro e, geralmente, para famílias, com mais ambientes.

Os apartamentos mais novos (ou reformados recentemente), tem piso e não tatami, mas nada nos impede de encontrar ainda quartos com tatami por aí. Acredito que a proporção de quartos com e sem tatami são iguais. E, tirando a extrema dificuldade de limpar ou manter limpo um tatami, quartos tradicionais não são assim tão ruins. As portas de correr continuam muito comuns, mas acredito que seja mais por uma questão de economia de espaço e não por samurais, papel de arroz e tradição. (rs) A maior parte dos japoneses, hoje, ainda usa futon para dormir, mas as camas com armação e colchão tem se tornado mais comuns ultimamente.

Outro ponto disso tudo é a questão do custo. Considerando a falta de espaço no Japão, principalmente nos grandes centros e nas áreas próximas às grandes cidade, o valor do aluguel, por metro quadrado, é justo. Mas, em termos brasileiros, os aluguéis japoneses são extremamente caros. Só pra constar, o valor do meu aluguel no dormitório era de 28 mil ienes, o que equivale a cerca de R$550... Por um quarto de NOVE METROS QUADRADOS, mais os espaços comuns. Não sei vocês, mas eu acho isso absurdamente caro. Não comento também a compra de imóveis, porque não sei bem como funciona e imagino que seja incrivelmente mais salgada.

Existem várias imobiliárias super famosas no Japão e, geralmente, é nelas que conseguimos encontrar apartamentos legais com mais facilidade. Numa imobiliária japonesa, você chega, descreve exatamente o tipo de apartamento que você quer, o quanto quer gastar e a área, depois disso, o corretor vai te apresentar as opções e você vai poder visitar todas que preferir. As visitas são fundamentais, porque nem sempre as plantas nos dizem exatamente como é o apartamento e, na maioria das vezes, pelo menos nas nossas cabeças nativas de países de proporções continentais, a planta sempre parece muito maior do que encontramos de espaço ao chegar no local. Falo por experiência própria. Além dos prédios estranhíssimos, com costumes estranhos e meio porcões que podemos encontrar. No caso imobiliário japonês, realmente, nem tudo que reluz é ouro.

Acredito que encontrar um lugar pra morar, no Japão, é uma tarefa complicada para quem gosta de ter detalhes bem específicos na casa também. Como separações de cômodos e tudo mais. Você sempre terá que abrir mão de alguma coisa. Além de ter de lidar com uma burocracia infernal. Mas, no fim das contas, ainda é possível encontrar um lugar legal, que fique aconchegante.

20 de outubro de 2012

IRASHAIMASE!!!!!!!

Muitos de vocês já viram essa cena, da série “The Big Bang Theory”:



Uma coisa é certa, depois de viver no Japão, o mundo se torna mais barulhento e silencioso, ao mesmo tempo. Hoje vou contar pra vocês como é a vida diária no Japão, quando o assunto é barulho.

Algo engraçado sobre esse país são os extremos. No Japão, o oito e o oitenta estão tão próximos, que se esbarram. Como diz Amelie Nothomb, escritora de uma das mais perfeitas obras no que diz respeito à compreensão de “mente e sociedade japonesas” - o livro “Medo e Submissão”, você pode ser o quão 'freaky' você desejar no Japão, mas dentro de um padrão japonês das coisas. E nem ouse pensar em desrespeitar as regras dessa sociedade (somente no caso de você não ser um japonês, claro). Fazer aqueles tipos de coisa extremamente irritantes que só bêbados fazem (tipo gritar vomitar ou encher o saco dos outros) é muito normal, mas falar no telefone, no trem, não pode. Às vezes fico tão confusa, que não sei dizer se a maluca sou eu ou se as regras aqui são realmente o oposto de tudo que mamãe me ensinou. Mas a gente vai aprendendo que estar longe de casa é também estar na terra dos outros, na cultura dos outros e tendo que aturar os outros.

O silêncio e a falta dele têm um limite muito tênue, no meio de todas essas regras.

Num país onde desastres naturais são mais comuns do que colheitas bem sucedidas, as construções são, obviamente, feitas do material mais leve possível, impedindo soterramentos mortais ou sendo mais maleáveis em casos de tremores. Isso é muito aceitável do ponto de vista de SOBREvivência, mas extremamente desagradável do ponto de vista de CONvivência. Não espere por privacidade em um apartamento japonês, até seu ronco pode ser ouvido através das paredes (sim, eu já ouvi o ronco do vizinho). E não pense que a compreensão de uma estrutura mais leve torna seus 'barulhinhos' perdoáveis para os implacáveis vizinhos nipônicos. As reclamações vão ser mais constantes do que você imagina, ainda mais se você é um 'baka gaijin' ('estrangeiro idiota'), que indiscutivelmente nunca vai entender a forma correta de se viver no Japão. Use chinelos, porque posso ouvir seus passos, ou ponha um tapete na sua casa, pra abafar o som das suas terríveis idas à geladeira ou ao banheiro. Instrumentos musicais? NUNCA! Animais de estimação? Talvez peixes. Amigos visitando? Ensine-os bons modos.

Outras regras rígidas sobre barulho tem a ver, principalmente, com celulares. Nunca entendi muito bem a diferença de uma conversa com um amigo pessoalmente e uma conversa por telefone no Japão. Acompanhado de um amigo, é claro que se pode conversar dentro de um trem. Mas nem pense em atender ao telefone na mesma situação. Já vi situações embaraçosas, onde idosos deram boas “carraspanas” em alguns jovens, por estarem falando no telefone. Preferi aceitar, na minha cabeça, que é muito chato ouvir uma conversa unilateral, os japoneses gostam mesmo de ouvir o pacote completo. Hahaha!

O oposto de tudo isso também está em cada esquina do país.

Não pense que a cena do Sheldon é invenção da TV! Sim, os japoneses têm o costume de receber clientes, em restaurantes ou lojas de qualquer tipo, gritando e mostrando entusiasmo. Eles têm a intenção, na realidade, de mostrar ao cliente que ele é bem vindo ou que pode voltar sempre ou que todos são muito agradecidos pela preferência. É também costume das lojas usarem musiquinhas e barulhinhos sonoros, sempre que possível.

Irashaimase’ (‘seja bem vindo’), é o mantra no momento de entrada na loja ou sempre que um funcionário passa por você. É claro que existem as variações, de acordo com o grau de formalidade, mas o basicão é o ‘irashai’. ‘Arigatou gozaimasu! Mata okoushikudasaimase!’ (‘Muito obrigado! Até a próxima!’) é a calorosa despedida, nos mostrando o quão acolhedora e grata é a loja e o quanto nós somos esperados novamente.

Cortesias à parte, é extremamente desagradável comer, fazer compras ou qualquer outra coisa com esses gritos. Imagine em uma loja muito movimentada, quantas vezes a cada 5 minutos somos obrigados a ouvir isso? Às vezes chega a ser desesperador, dependendo da vozinha que a vendedora escolher fazer (o que também é muito comum entre as mulheres japonesas, fazer vozes ‘kawaii’ para se mostrarem bonitinhas).

Pachinkos, os famosos caça-níqueis japoneses, são portões do inferno pra aqueles que preferem um pouco mais de sossego. Passar na calçada de um desses “centros de lazer” nos leva a pensar em quanto tempo seria possível sobreviver dentro de um lugar como aquele e como as pessoas conseguem, às vezes, passar dias inteiros dentro daqueles lugares.

O resumo da ópera é: ao vir para o Japão, lembre-se sempre que andar dentro do seu próprio apartamento pode ser um incômodo mortal para o seu vizinho, mas, se gritarem no seu ouvido no meio do jantar, é só gentileza.

E, depois de 2 anos e meio aqui, passei a falar baixo demais pra padrões brasileiros, praticar a arte de andar em ovos sem quebrá-los sempre que estou dentro de casa e estranhar a falta de gritos quando entro ou saio do McDonald’s (ou qualquer outro restaurante) fora do Japão.

10 de outubro de 2012

Temaki

Isso ae mesmo! Hoje vamos falar sobre aquela delicinha que, já há alguns anos, você pode comprar em qualquer esquina do Brasil – o famoso temaki. O único problema de comprar o temaki no Brasil é a ‘bagatela’ (puff!) que cobram por qualquer tipo de comida japonesa na nossa terra tupiniquim, né? Outro dia ouvi de uma amiga que um potinho pequeno de conserva de gengibre custa R$5 numa famosa rede de ‘temakerias’ do Rio. Credo, né gente? Vamos fazer em casa, que é mais barato, gostoso e leva o ingrediente que a gente quiser.

O temaki é, tradicionalmente, um rolinho japonês. Existem milhares de tipos de sushi; alguns deles nem são originários do Japão, são mesmo invenções nossas aí no ocidente, como o famoso e delicioso ‘Hot Filadélfia’ (meu favorito). Por incrível que possa parecer, o temaki, como nós conhecemos no Brasil e no resto do mundo, não é tão famoso no Japão. Confesso que é complicado encontrar um restaurante ou bar que venda os ‘beneditos’ por aqui.

Os japoneses gostam mais do makizushi, que é um rolinho japonês fechado, não em forma de cone. Vocês podem achar que nunca viram mais gordo, mas comeram várias e várias vezes, só que cortadinho. E eu, por sorte, achei um brinquedinho aqui que ajuda muito a fazer makizushis deliciosos...

Quem sabe os amigos não se dão bem e comem alguns lá em casa, quando eu voltar pro Brasil, né? rs

Mas, voltando ao temaki... Parece doideira, mas é uma das coisas mais fáceis de fazer NA VIDA! Aprendi com uma das minhas queridas professoras de japonês, quando visitei sua casa, há uns 4 anos (Deus, o tempo voa... O.O).

Você vai precisar de:

- Arroz japonês (nunca tentei com outro e aconselho que seja o japonês mesmo, porque precisa ser empapadinho, o Momiji é famoso e barato no Brasil);
- Nori (alga japonesa, vendida em lojas especializadas e em alguns supermercados, o Extra, por exemplo);
- Recheios (eu uso: maionese japonesa, pepino cortado em tirinhas, kani, atum enlatado, milho, salmão cru, cream cheese, etc.)

Semana passada fiz uma ”Noite de temaki” lá em casa, com o namorado, e preparei um tutorial rapidinho. Olha como é fácil!

1 – O nori é vendido assim, num formato retangular grande. Corte em retângulos menores (2 ou 3, dependendo do tamanho original);

2 – Posicione a metade de um dos retângulos na palma da sua mão;

3 – Com uma colher, espalhe um pouco de arroz nessa metade (seja parcimonioso, se o arroz for demais, o temaki não fecha e vai ser uma zona! rs), pressionando de leve, pra dar uma achatada;

4 – Por cima do arroz, espalhe os recheios que você quiser, de preferência na diagonal, a final você pretende ainda fazer um cone com tudo isso. No meu, usei kani, pepino, cream cheese e cebolinha.

5 – Agora vem a parte de enrolar seu temaki. Sim, essa é a parte tensa do processo e meus “pupilos em temaki” (rs) nunca conseguem de primeira. O segredo é pegar a ponta da alga e dobrar na direção do centro do retângulo, formando um triângulo (aulas de geometria culinária... hahaha!).

6 - Mantenha o lado dobrado com uma mão e puxe o lado livre do nori para fechar o cone.

7 – PRONTO! ^^

O namorado foi mais literal e preparou um real TE-maki pra gente... Hahahaha! Pra quem não sabe (a maioria esmagadora do universo), ’te’ significa ‘mão’ em japonês e ’maki’ é ‘rolo’. Tá aí o TE-maki do moço:

O sushi é o alimento tradicional do japonês. [Veja bem, tradicional não quer dizer o mesmo que o arroz com feijão significa pra nós. Não se come sushi todos os dias, bem como não comemos feijoada todos os dias.] E, hoje em dia, é mais barato e divertido comê-los nos famosos Kaitenzushi (lugar onde o sushi fica dando voltas numa esteira). Além de gostoso, o sushi é, sem dúvida nenhuma, saudável e até light (se considerarmos os ingredientes leves e ignorarmos os carboidratos do arroz ou considerarmos que nem é tanto assim). Então, gente, SE JOGA NO TEMAKI CASEIRO! =P

21 de setembro de 2012

Purikura – A ‘arte’ japonesa das fotos emperequetadas

Todo mundo que conhece um pouquinho de Japão e gosta da louca cultura pop daqui sabe o que é uma Purikura. O nome é a abreviação de Purinto Kurabu, o ‘ajaponesamento’ de Print Club. As purikuras nada mais são do que fotos adesivas, feitas em máquinas um pouco maiores do que as tradicionais máquinas de 3x4, que salvam a gente na hora do aperto do “Preciso de uma 3x4 pra amanhã!”.
A diferença básica da purikura pra uma fotografia de máquina normal são as formalidades, eu diria. Vocês, certamente, não estariam dispostos a decorar com brilhinhos, flores, corações, balões e carinhas fofinhas a sua 3x4, estariam? Hahaha!
A purikura é uma invenção japonesa da década de 90, que dominou toda a Ásia. O sucesso das pequenas fotos adesivas foi e continua sendo imenso no Vietnã, na China, em Hong Kong, Taiwan, Tailândia, nas Filipinas e, principalmente, na Coréia do Sul. Nas duas vezes que estive na Coréia, tirei purikuras; vestindo roupas coreanas tradicionais, na primeira vez, e algo mais ‘normal’ na segunda.
Minhas purikuras coreanas
O sucesso no Japão continua sendo tão imenso que tirar fotos com os amigos nessas máquinas é um programa que exige dedicação e tempo hoje em dia. As lojas com as famosas máquinas estão por toda parte e oferecem opções um tanto curiosas (pras nossas cabeças ocidentais). Numa das maiores lojas de fliperama de Shinsaibashi (um dos maiores centros comerciais de Osaka), é oferecido aluguel de roupas e existem espaços especiais, com espelhos etc., pra maquiagem.
Máquinas de purikura em Shinsaibashi
A máquina de Purikura é ENORME e consegue abrigar até um pouco mais de cinco pessoas. Em geral, os usuários ficam de pé, em frente a um engenhoso equipamento, que inclui a câmera fotográfica e a aparelhagem de iluminação. O fundo do cenário é sempre verde, para permitir a inclusão das montagens depois de feitas as fotos. E o processo para fotografar é relativamente barato e fácil para o resultado. Parece bobagem, mas as fotos ficam com uma qualidade muito boa.
A aparelhagem que tirou essa foto minha com a Carol
Depois de tiradas as fotos, é hora de ir para o espaço reservado, em outro ‘compartimento’ da máquina e ‘emperequetar’ suas fotos. As máquinas oferecem opções de incluir datas, carimbos, imagens, escrita, bordas, coloração de olhos/cabelos/pele, e tudo isso nas mais variadas formas. Você pode, realmente, transformar tudo em você e no cenário.
Jimin decorando nossas purikuras em Daegu, Coréia. E o resultado...
Algo ainda mais curioso sobre as máquinas de purikura na Ásia são os olhos. Todas elas dão destaque aos olhos, aumentando-os consideravelmente e deixando nosso rosto um tanto estranho ou expressivo demais. É lógico que isso é explicável e a maior parte das meninas orientais não gostam de ter olhos puxadinhos, fechadinhos e tal. Eu não sei... Acho que os olhos são sempre a parte problemática da coisa e sempre procuro as máquinas que tem esse efeito um pouco menos exagerado. Porque acho que o tamanho dos olhos já está naturalmente certinho com o nosso formado de rosto e tal... Melhor não mexer em time que não está perdendo (pode não estar ganhando, mas perdendo não ta não! Hahahaha!), né?
Pessoalmente, gosto muito de purikuras. Não sei se é por juntar frescurada de menininha, fotografia e um ‘photoshop style’ (três coisas que eu adoro), ou se é só porque gosto de guardar lembranças de momentos legais, ou tudo isso junto e mais um pouco. Adoro virar, depois de um jantar especial e mandar um: “Gente! Vamos tirar purikura?!?”
Algumas das minhas vááárias purikuras.
Acho que talvez as máquinas de purikura farão falta quando eu voltar pro Brasil...

17 de maio de 2012

Brasil-Japão

Não consigo entender o que me afasta desse blog por tanto tempo. Às vezes acho que é preguiça, mas não existe preguiça quando você tenta fazer alguma coisa e simplesmente não consegue. A verdade é que canso de abrir e fechar meu Word, abro na esperança de escrever alguma coisa útil e fecho quando acaba minha energia pra pensar em algo. Também tem vezes que são tantas coisas acontecendo, que não consigo transformar em palavras de uma forma fácil, preciso digerir tudo e pensar sobre. Nunca tive muito o dom (ou a paciência) pra escrever posts mais gerais e informativos, tanto que são poucos os lugares que visitei e descrevi aqui. Devia tentar fazer isso mais vezes, me forçar... Mas, enfim...

Meus últimos meses foram uma loucura completa, mas uma loucura boa. Um período pra pensar sobre planos, coisas e pessoas.

Estive no Brasil durante todo o mês de abril, o que indica que março foi inútil e cheio de coisas pré-viagem pra resolver. Além do que também tenho o programa de verão na ONU, em junho, que me deu bastante trabalho até o dia do embarque.

Saindo do Japão por esse tempinho, me vi livre de uma série de coisas que estavam me sufocando aqui. Às vezes vem aquele monte de perguntas à cabeça, me fazendo querer pegar minha trouxinha e voltar pro lugar de onde nunca devia ter saído. E foi o que eu fiz, com os devidos meses de planejamento. Hehehe!

No dia 3 cheguei ao Rio, depois de viajar pela primeira vez com o namorado e planejando uma viagem inesquecível. Dessa vez fui já certa de que 1 mês não é tempo suficiente pra ver todos que gostaria, mas fiz o possível pra ver a maioria. E realmente encontrei com bastante gente, inclusive quem eu já não via há 2 anos, porque também não consegui ver no ano passado. Também tinha em mente uma coisa que pensei muito antes de sair do Japão; queria ver meus amigos, aqueles que podem ficar 50 anos sem me encontrar e me receber com os mesmos braços abertos de quem me viu ontem.

Acho que foi mesmo uma viagem inesquecível, pois consegui fazer exatamente o que tinha em mente o tempo todo. Tive a alegria de passar meu aniversário em casa, depois de dois anos, e com a companhia do namorado, que veio de Goiânia na época, pra conhecer minha família e, de quebra, passar a data comigo. Esse foi um dos momentos que me senti mais completa na vida. Tinha, ao meu alcance, quase todas as pessoas que amo, e quase ao mesmo tempo.

Foi uma viagem muito importante também pro nosso relacionamento, que vem amadurecendo de um jeito meio assustador. Hahahaha! Também fui para Goiânia, conhecer a família do Carlos e fiquei encantada com tudo. Uma família linda, amorosa e carinhosa; uma cidade muito bonita, tranquila e moderna.

Voltei pro Japão com o coração renovado, apesar da tristeza por não ter podido encontrar algumas pessoas, e a tranquilidade de saber que agora só falta 1 ano e 11 meses pra voltar definitivamente. Minha grande alegria nessa viagem foi confirmar, mais uma vez, o grande número de pessoas especiais que tenho na minha vida e como tenho sorte por isso. Agora é fazer valer a pena o tempo no Japão e correr atrás de oportunidades que infelizmente só tenho aqui. Mês que vem embarco pra Nova Iorque, pra realizar um dos grandes sonhos da minha vida, vou passar uma semana em um curso intensivo na ONU. *olhinhos brilhando*

25 de fevereiro de 2012

Desfecho Épico

Akeome! [de ‘Akemashite omedetou’, a versão japonesa do bom e velho ‘Feliz Ano Novo’] Não escrevo no blog desde o ano passado, que loucura! Tá, ok, piadinhas fail por toda parte... 2012 tá aí e seja o que Deus quiser; esperando, é claro, que os Maias não estivessem certos.

Tenho me recuperado, nos últimos tempos, de um fim de ano tão maravilhoso e cheio de acontecimentos que não sei nem por onde começar... Ou melhor, sei, mas não sei dar continuidade... Enfim! Meu irmão veio pro Japão e eu tive os melhores 15 dias dos últimos meses.

O ‘moleque’ chegou dia 20 de dezembro e começaram minhas andanças por esse Japão. Ser anfitriã é assim, né gente? Tem que mostrar tudo bonitinho, ainda mais pro menino que é alucinado por Japão. Eu e Júlio sempre tivemos muitas coisas em comum, principalmente os gostos; gostamos de estilos de música parecidos, gostamos de história, gostamos de viajar e gostamos de cultura oriental. E nada melhor do que começar nossas mil viagens por Kyoto.

Antes disso, ainda no dia 20, almoçamos um ramen de verdade e fomos a um não tão tradicional, porém famoso, kaitenzushi. Sabe aquele restaurante de sushi onde os pratinhos ficam passando numa esteira? Então... E esse ainda tem o plus de ter um joguinho a cada 5 pratos acumulados. O Júlio fez o favor de ganhar DUAS VEZES! Quando eu, que moro do lado do estabelecimento, NUNCA ganhei. Mas beleza...

Kyoto é a cidade que todo turista quer ver no Japão. Ponto. Tudo aquilo que você imagina, de samurais e pessoas de kimono pra tudo quanto é lado, tá lá. Templos milenares, casas tradicionais, castelos... HISTÓRIA. E assim foi, visitamos os templos mais badalados, como o Kiyomizudera e Inari, e chegamos até a ver geishas [falsas, mas vale pra ilustração]. E assim foi também nosso segundo dia de andanças, dessa vez em Nara e com direito a Buda gigante, veadinhos por todo lado, palácio de 1300 anos e um delicioso kare [de curry] como almoço.

Os dias seguintes foram mais tranqüilos e menos históricos. Passeamos por Kobe, a cidade do meu coração no Japão, visitamos o guardião [Tetsujin-28], o porto, Chinatown e voltamos pra casa. O dia seguinte já era véspera de Natal e o rapazinho me ajudou a limpar a casa e organizar tudo. Foi um Natal lindo, divertido e especial. Ganhei uma Polaroid clássica do namorado que foi um presente f*#$. No dia 25, andamos por Osaka, visitamos o castelo e nos preparamos para mais uma semana de viagens.

A segunda pós-Natal foi a mais épica e, talvez, a viagem mais marcante pro Júlio e, confesso, pra mim também foi uma agradável surpresa. Fomos pra cidade de Mimasaka, na província de Okayama. Não, ninguém conhece esse lugar... Até checar na nossa amiga Wiki, o nome antigo do lugar e suas conexões históricas. Mimasaka nada mais é do que a cidade natal de Miyamoto Musashi, um dos mais famosos samurais da história do Japão. Visitamos o museu, a casa onde ele nasceu, o templo dedicado ao cara e até o túmulo dele. Isso tudo debaixo de uma nevasca fenomenal, que rendeu fotos muito legais! A primeira neve da vida, na cidade do ídolo mor, foi tipo uma conjunção de orgasmos múltiplos e coloridos, como diria Carol.

O dia seguinte também foi muito legal e rendeu experiências fantásticas. Fomos à cidade dos ninjas, Iga-Ueno, na província de Mie. Visitamos uma casa de ninjas original, com todas aquelas passagens secretas e alçapões. Fomos a dois museus ninjas, contando toda a história e etc. Depois passamos pelo castelo e voltamos pra Osaka, pra comer um tradicional e delicioso Okonomiyaki [prato típico daqui e nova paixão do um irmão]; e esse ainda era de várzea, num restaurantezinho minúsculo e super delícia [vantagem pra quem tem guia ‘residente’].

O dia seguinte foi mais ‘grupal’. Juntamos a galera e fomos pro castelo de Himeji. Atualmente o castelo está passando por uma restauração, mas descobri uma tal visita à obra e lá fomos nós bisbilhotar o ‘trabalho de chinês’ de restaurar todo o telhado de um dos poucos castelos ainda originais do Japão. A visita ainda rendeu andanças pela enorme área do castelo, inclusive as muralhas. Depois partimos pra um almoço mais tradicional e delicioso. O dia seguinte guardava 8 horas de viagem de trem normal até Tokyo, com o bom e velho 18 kippu voltando a ser citado nesse blog; cansativa, mas com direito a ver de perto o Mt. Fuji lindíssimo.

Tokyo, como sempre, estava exuberante, agitada e cheia de novidades. Visitamos a Torre de Tokyo, Roppongi, o famoso templo Yasukuni [meu favorito, por razões profissionais], Shinjuku, Ginza, Harajuku, o templo Meiji, o parque Yoyogi [com lindas pinturas no chão da entrada! *-*], Shibuya, Asakusa, Okubo [e sua ‘Korea Town’, onde tivemos um jantar delicioso].

O marco da nossa viagem pra Tokyo, além de eu e Carol, gripadas e vencendo a gripe apenas com nossos sistemas imunológicos bem estabelecidos, foi a virada do ano. Fomos pra Shibuya, encontrar um enorme grupo de estrangeiros, que estavam com nossa menina Jams [garota carioca, suingue sangue bom], num restaurante com karaokê. Mais tarde também fomos contemplados com a presença de nossa menina Tatá [também garota carioca, suingue sangue bom]. A virada foi uma loucura. Sim, no Japão às vezes [muito raramente] isso acontece, ok? Shibuya é o lugar do cruzamento mais famoso do mundo. Conhecem? [Nop? Google it!] Pois então... Perto da virada, com todos devidamente bêbados e entretidos depois do karaokê, fomos pro cruzamento. Os telões da contagem foram apagados, pra evitar confusão [sim, isso é Japão], a polícia estava alucinada e ficamos lá, acompanhando a chegada do ano, cada um em seu próprio relógio. O ano novo veio e a forma de comemorar, além do clássico “Feliz Ano Novo”, foi ficar cruzando a rua sempre que o sinal abria, com pulinhos, gritos e no meio de uma multidão. Júlio e Carlos viraram melhores amigos de infância e best friends forever. Foi hilário e eu confesso que também atravessei a rua umas duas vezes. Hahaha!

A volta pra casa nos deu a deixa pra uma passada rápida em Kamakura, onde visitamos o Buda gigante e foi muito legal também, porque conseguimos entrar na estátua. Isso aí, penetramos o Budão. O maninho também teve seus momentos, comprou incenso, etc etc. E, mesmo depois de mortos de cansaço com a viagem de volta, ainda tivemos a cerimônia de soroban [aquela que eu já citei aqui]. Estávamos cansados, mais foi muito legal e ainda fizemos um monte de coisas tradicionais, como o shodo de ano novo, chamado Kakizome [a primeira escrita do ano].

Triste foi me despedir, viu? Ainda mais depois de um período de viagens, “aventuras”, diversão, papos só nossos e amizade, como foi esse. Estava mesmo sentindo falta disso, de ter um dos meus pimpolhos por perto e poder me sentir realmente em casa. Obrigada por ter vindo, Rolha, e por me mostrar que não importa a distância, não importa o que aconteça, amizade e família são pra sempre. Espero que esse período aqui tenha também sido uma oportunidade de você se divertir, conhecer novas pessoas, fazer novas amizades e abrir os olhos pra quanta coisa esse mundo ainda tem pra te mostrar. Te amo, meu irmão!